Uma entrevista divertida com Antonio Dias, em Milão, 1990

Marcos Augusto Gonçalves
Conheci Antonio Dias em 1990, em Milão, quando fui correspondente da Folha na Itália. Ele tinha 46 anos e eu 34 (bem, hoje posso dizer que éramos jovens!). Naquela época mantinha seu apartamento na rua Fratelli Bronzetti mas estava com um pé em Colônia, cidade que andava movimentada e atraía muitos artistas .
Ficamos amigos e continuamos nos encontrando ao longo desses anos. Sua morte e uma troca de mensagens com Lica Cecato, que foi sua mulher, me lembraram de uma entrevista que fizemos em seu apartamento milanês, em finais de 1990.
A parte mais legal foi um divertido “pinga-fogo” com perguntas e respostas curtas sobre arte e vida. Ele gostou quando viu. Reproduzo aqui.
PESSOAL E INTRANSFERÍVEL

Vício: “Fumar”
Comida: “Italiana e japonesa”
Restaurante: “Trattoria da Davide, no corso Garibaldi, em Milão”.
Costureiros: “Jeans, Armani e Lagerfeld”
Bebida: “Superalcoólicas”
Mineral com gás ou sem gás? “Água só de coco”
Rio ou São Paulo: “Os dois, com todas as diferenças”.
Milão ou Paris? “Milão e Colônia para trabalhar. Paris para passear”.
País a conhecer: “Toda a Ásia”
Rua: “Riachuelo, no Rio”.
Cor: “Cinza grafite e vermelho”
Collor: “O moço que eliminou as instituições culturais no Brasil”.
Ginástica: “Na cama”
Esporte: “Vide ginástica”
A pé ou de trem? “A pé. Adoro andar. Seria capaz de caminhar 24 horas sobre 24 horas, exceto, claro, durante as horas de ginástica”
Avião ou bicicleta? “Avião, sempre. Bicicleta, nunca”
Por que usa óculos: “Tenho tudo, astigmatismo, miopia, um pouco de vista cansada e glaucoma”

ARTE

Pincel ou brocha? “Brocha. E velha”
Começa a pintar de cima para baixo ou de baixo para cima? “Depende de onde estou”
Tela: “Belga, de linho, com preparação a gesso. Na falta, qualquer pano, depois de preparado”
Duchamp ou Picabia? “Os dois. Um diverte, outro faz pensar”
Picasso ou Mondrian? “Nenhum dos dois. Um diverte, outro faz pensar”
Salvador Dali: “Gosto, por incrível que pareça”
Crítico nota 10: No Brasil, Paulo Sérgio Duarte e Ronaldo Brito
Transvanguarda: “Um momento fraco”
Neo-conceitual: “Neo-déjà vu”
Performáticos: “Bom para ‘night’ de periferia”
Matéricos: “Consultar livros sobre o informal e o tachismo”
Vídeo: “Arte do futuro”
Cinema italiano: “Arte do passado”
Vernissage: “Estou aprendendo a evitar. É como ir à missa”
Bardi: “Bar de quem?”
Arte: “Imagina!”
Artista: Vivo, Jannins Kounelis. Morto, Joseph Beuys
Fotografia: Miguel Rio Branco
Galeria Alaska ou galeria Vitório Emanuele? “Não gosto muito de galerias”
Marchand nota dez: No Rio, Jean Bolghici; em São Paulo, Luisa Strina; em Badenweiler, Luise Krohn, que já fez 81 anos”
Marchand nota zero: “Giorgio Marconi, em Milão”
Verde: “Óxido de cobre ou folhagem”
Vermelho: “Naphthol Crimson”
Rosa: “Só Luxemburgo”
A melhor revista de arte: “Parkett, da Suíça”
A pior revista de arte: “Todas a pagamento. Serve também para o Brasil”
O colecionador: “Certamente não é o especulador”
Cores e sons: Gosto mais de música do que de artes plásticas”
Preto e Branco ou cores: “Sempre senti uma dimensão gráfica em meu trabalho, em termos de polarização, entre branco e preto. Ultimamente a cor está me chamando a atenção”

CANÇÃO DO EXÍLIO

Cinema: “O antigo Rian, em Copacabana”
Amigos de outros tempos: Roberto Magalhães, Jorge Mautner, José Agripino de Paula, José Resende, Wesley Duke Lee e Rogério Duarte
Por que saiu do Brasil? “Achava que era mais seguro”
Música brasileira: “Quase todo mundo. Cartola, Walter Franco, Itamar Assunção, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Hermeto Paschoal”
Marca de cigarro: Hollywood

PREFERÊNCIAS

Costura ou cultura? “Cultura”
Beatles ou Stones? “Os dois”
Mick Jagger ou Keith Richards? “Os dois juntos”
Secretária ou secretária eletrônica? “Secretária eletrônica”
Gabeira ou Cohn-Bendit? “Rude Dutchke”
O melhor do Brasil: “Só música”
O pior do Brasil: “Buracos nas ruas e assaltos”
Palavra escrita: “Os concretos e Octavio Paz”
Jorge Amado: “Vide entrevista dado no Brasil por Achille Bonito Oliva”
O chato: “Seria uma lista muito grande”
O burro: “Maior ainda”
Atriz predileta: Fanny Ardant
Ator predileto: Paulo César Pereio
Filme inesquecível: “’Le Chien Andalou’ (O Cão Andaluz), de Bunuel”
Diretor de cinema preferido: Glauber Rocha e Jean-Luc Godard
Jornal que lê quando está na Itália: “Depende, mas em geral são todos muito chatos”
Revistas semanais: “As internacionais. ‘Time’, ‘Newsweek’, ‘Nouvel Observateur’”
Lugar preferido em Milão: “Piazza Vetra, na região das colunas de São Lourenço. É um lugar belíssimo. Pena que tenha virado ponto de tráfico de drogas”
FOTOS:  2011 – Evelson de Freitas/Folhapress