Tarso de Castro volta em filme que escorrega em chororô saudosista

Marcos Augusto Gonçalves

Tarso de Castro era uma lenda do jornalismo quando cheguei à Redação da Folha em 1984 para trabalhar na Ilustrada, com Matinas Suzuki Jr., Leão Serva e uma equipe que reunia nomões da geração “Pasquim”, como Sérgio Augusto, Paulo Francis, Ruy Castro, além do próprio Tarso, e uma turma de jovens promissores.

Eu tinha 28 anos de idade, Tarso, 43. Na Folha, ele já havia criado e editado o suplemento semanal de cultura “Folhetim”, mas àquela altura assinava uma coluna na Ilustrada. Tinha uma sala e uma assistente, a jornalista Lilian Pacce, que depois se transformaria numa referência na área de moda.

Chegava ao jornal, sapecava um beijo na boca de nossa compenetrada secretária, dona Vicentina, falava coisas divertidas, parodiava trejeitos de bicha, saía para beber durante o fechamento e acabava por entregar, nem sempre pontualmente, seu texto – que precisava ser submetido à aprovação prévia do “publisher” da Folha, Octavio Frias de Oliveira. A ditadura dava sinais de esgotamento, mas ainda vivíamos sob um regime militar, comandado pelo general João Baptista Figueiredo.

Lembro-me que certa vez, responsável pela edição do caderno, eu não tinha recebido, apesar da hora avançada, o  ok para a publicação da coluna. Aflito com a situação, fui cobrar do Tarso. Ele entregou o texto e disse para mim (aquele foca carioca precocemente alçado a editor) que já estava aprovado.  “Pode descer,  o Frias leu, está tudo bem”. Só que não. Hahaha. Tarso se divertia com essas coisas.

Eu gostava daquele espírito rebelde – e  ele parecia simpatizar comigo. Pouco tempo depois de eu ter chegado, elogiou-me em uma de suas colunas por uma crítica de música popular. Fiquei contente, mas sabia que o elogio também era uma forma de alfinetar os críticos da Ilustrada dos quais discordava.

No próximo dia 24 estreia um filme sobre ele.   “A Vida Extraordinária de Tarso de Castro”, com direção de Leo Garcia e Zeca Brito, traz à tela o personagem boêmio, sedutor, divertido e trágico, que morreu de cirrose, em 1991, pouco antes de completar 50 anos. O documentário revisita o criador do “Pasquim” e de outras tantas publicações em suas peripécias, que começam em Passo Fundo (RS), sua cidade natal.

Há muitos depoimentos e personagens importantes, que vão de colegas de imprensa, como Jaguar, José Trajano ou Luiz Carlos Maciel, a amigos da área cultural, como Paulo Cesar Pereio e Caetano Veloso – padrinho, aliás, de João Vicente, o filho, que também aparece numa tensa conversa com Roberto D’Ávila.

O lado chato é aquela nostalgia toda, aquele saudosismo dos tempos românticos do jornalismo, segundo o qual naquela época tudo era incrível, era de verdade, era genial,  ao contrário dessa porcaria de hoje.  Entram em cena a falta de senso crítico fantasiada de senso crítico e avaliações rasas, muitas vezes ressentidas, sobre a imprensa pós-Tarso. O auge do chororô é uma marcha constrangedora sobre a Folha cantada ao piano por Paulo Caruso, sem nenhum contraponto.

 

FOTO: Imagem de Tarso no filme. Divulgação.